OPINIÃO

MEO Marés Vivas (não) é para todos

Depois deste período que pensava ser fácil de ultrapassar, estou de volta para relatar a minha primeira experiência num Festival de Verão. Não, não comprei um bilhete para os três dias e nem sequer fui para a praia do Cabedelo curtir para o meio da multidão. Estive no MEO Marés Vivas, ao serviço da Glam Magazine. O trabalho não foi como FOTO GURU, mas integrado numa atividade paralela, (ainda) como freelancer, no ramo da fotografia.

As minhas andanças pelo mundo da música são são algumas. Não tenho a rodagem de muitos outros colegas que são um “ferrinho” em tudo que é concertos e festivais, mas também não posso dizer que sou inexperiente. Pese embora o facto de ainda hoje aprender novas técnicas e novas formas de estar e agir, qualquer evento que nos coloque stress e pressão é bem-vindo. Obriga-nos a preparar e a desenrascar. O facto de termos apenas 3 ou 4 músicas para fotografar leva a que planeemos a nossa sessão. Mas antes disto vou dizer-vos como tudo aconteceu…

A Credencial

O primeiro passo para entrar no MEO Marés Vivas era a obtenção de uma credencial de imprensa. Por força de algumas amizades que fui criando, tem-me sido fácil obter autorizações para quase todos os espetáculos que quero fotografar. Salvo raras exceções, como é o caso dos concertos GRANDES, os médios e os mais fracos (teoricamente) são os mais fáceis de cobrir.

Uma das entidades que utilizo (ou que me utiliza, dependendo da perspetiva) é a Imagem do Som; a outra é o Mundo de Músicas, mas foi num anúncio através do facebook da Glam Magazine que vi que havia uma vaga para fotógrafo para o MEO Marés Vivas. Como não tinha nada a perder, até porque provavelmente haveria alguém mais qualificado e com mais portefólio do que eu, concorri sem qualquer certeza. A esperança é a última a morrer e é certo que enviei a minha candidatura mais completa possível, fazendo referência principalmente à Imagem do Som. O mundo da música, em termos fotográficos, é muito concorrido, mas ao mesmo tempo pequeno. Em todos os concertos, as caras são sempre as mesmas… e foi a minha proximidade à iDS que me levou até Gaia. A categoria e a importância online que tem fez com que acreditassem que, se eu trabalhava para eles também poderia fazer um trabalho com qualidade para a Glam.

Credenciais de imprensa

Credenciais de imprensa

O festival

Chegada a data de início do MEO Marés Vivas, tinha indicações para captar imagens de todos os concertos. Obviamente que haveria sempre alguma margem de manobra para falhas, não fosse haver coincidência de horários, mas de um modo geral teria de cobrir o maior número de espetáculos possível. O primeiro que registei foi o dos Killimanjaro, no Palco Santa Casa (palco alternativo). Era de tarde, estava ainda pouca gente, e conseguia movimentar-me à vontade. Desde que começaram os concertos no palco principal, tudo mudou. Era a chamada, a distribuição dos coletes, a acesso ao pit 10 a 15 minutos antes de começar cada concerto e a possibilidade de conseguir (já no pit) um melhor local para fotografar.

A zona de imprensa

Contrariamente ao que aconteceu na edição passada do MEO Marés Vivas, a imprensa estava por trás da Bancada Caixa. Tínhamos uma zona reservada, com catering e bar aberto. O catering, devido à quantidade de pessoal acreditado como imprensa, não tardava a desaparecer pelo que era imperativo que estivéssemos presentes por volta das 19h (hora a que serviam o jantar) e depois por volta das 22:30, quando reforçavam a dose. Tendo bar aberto (cerveja, Somersby, cola e água) era fácil perdermos o controlo pelo que a consciência de que estávamos ali a trabalhar tinha de estar presente (e esteve) em todos quantos acediam a estas regalias.

Quem quisesse podia sair da zona de imprensa e vir para o público, assistir aos concertos, fotografar o ambiente e as bandas no palco alternativo, mas haveria de estar atento para nunca perder a chamada. A chamada era feita a uma voz, em tom mais alto que, normalmente, (apenas) dizia “Vamos lá!”. Quem não estivesse atento correria o risco de perceber que já nos tinham dado ordem de entrada quando visse os “coletes azuis” a descer a escadaria ao lado do palco. Falhei a chamada uma vez e tive de correr para conseguir chegar a tempo. Com o calor que se fez sentir, de máquina e mochila ao ombro, posso dizer não mais repeti a peripécia.

A entrega dos coletes começou por ser feita em cada concerto. Juntávamo-nos todos no cimo das escadas, era distribuído um colete a cada fotógrafo que tínhamos de devolver terminado o tempo estipulado para fotografar. No final havia uma passagem direta do pit para o público, mas normalmente percorríamos o caminho inverso.

Nesta edição do MEO Marés Vivas, havia um contentor onde estavam os colegas da redação de cada órgão de comunicação social que, mal saíssem as fotografias de cada artista haviam de as publicar nas redes sociais. Nesse mesmo espaço era afixado um papel com a indicação do nome da banda, a hora de atuação e o número de músicas que estávamos autorizados a fotografar. O normal era fotografar as 3 primeiras músicas no palco principal e o concerto completo no palco alternativo. Mas o festival MEO Marés Vivas de 2016 haveria de inovar. Sir Elton John apenas autorizou uma – a primeira – música. Até aí tudo bem, era normal. Distraído, não fui conferir o placard antes do início do concerto. Qual foi o meu espanto quando este começa a tocar… Intrigado, vi que a grande maioria dos meus colegas se mantinham serenos da zona de imprensa ao que questionei a calma. Fui então informado que, à última da hora, tinha sido afixada uma lista dos órgão de comunicação que estavam autorizados a fotografar essa primeira música. A outra inovação coube ao Dengaz… Estava decidido que eram 3 músicas, mas haveriam de ser a 9ª, a 10ª e a 11ª. Por um lado estragou o esquema todo pois obrigou-nos a ficar na entrada das escadas a contar as músicas e só depois de muitas consultas setlist é que decidiram chamar-nos para entrar. Aparentemente, tudo isto se deveu à condição de luz; os responsáveis pela banda decidiu aguardar que o sol baixasse, criando um maior impacto do sistema de luzes montado no palco.

O Pit

Muitos pensam que é fácil e pacífico fotografar um concerto. Até pode ser que isso seja verdade, mas não o foi no MEO Marés Vivas, como sei que não o é em qualquer festival. O número de fotógrafos aumenta à medida que os artistas são mais conhecidos e têm mais sucesso. Nunca contei, mas estou seguro que chegamos a ser 30 fotógrafos num corredor com 2 metros de largura, espaço esse que ainda tínhamos de partilhar com seguranças e tripés de colunas.

Fotógrafos no Pit

Fotógrafos no Pit

Obviamente que somos todos iguais. Lá dentro não há distinção de órgão de comunicação social ou “anos de casa”, mas há uma regra que impera: o respeito!

Se nós estamos a trabalhar, os outros também e isso fica bem vincado ao vermos que todos se abaixam quando passam pela frente de um colega (para não ficarem na fotografia) e que há a consciência de que um spot é utilizado durante apenas alguns segundos, para dar lugar a que outros consigam o mesmo ângulo. No fim, a “selva” até é organizada e não permite a inclusão de “arruaceiros”. A comunidade é unida e não aceita que um elemento destabilize a harmonia do caos.

A experiência

Não há melhor do que uma experiência num festival de verão. Sem considerarmos o peso que temos de carregar durante horas a fio, o calor que temos de suportar, o stress de fotografar com tempo controlado, incluindo a troca de lentes e todo o cuidado que naquele ambiente caótico temos de ter, o que vivi no MEO Marés Vivas servir-me-á para crescer. Não só como fotógrafo, mas como profissional. Percebi que o tempo vale mais do que dinheiro, ou seja, o tempo vale muito mais do que o valor que lhe queiram imputar. Um click pode significar uma capa de uma revista ou de um jornal… nunca se sabe!

O resultado é favorável para a alma, mas negro para o corpo. As horas que gastamos em todo este processo, a quantidade de escadas que subimos e descemos, a alimentação nada cuidada que fazemos é compensadora pela vivência. O pessoal é fantástico, o ambiente é brutal e a capacidade de te olharem de forma diferente, “inter pares“, dá-te vontade de continuares. Ninguém te questiona sobre como fotografas, que lente usas, porquê levar uma ou duas câmaras, … nada! Podem eventualmente comentar uma foto tua ou alguma situação mais caricata, mas no meio deste salve-se quem puder, o MEO Marés Vivas mostrou-me que há mais freelancers do que se julga, que os grandes também têm de fazer “trabalho de preto” e que ninguém é mais do que ninguém. O estatuto que damos aos outros é isso mesmo, …. nós damos aos outros; eles não o reclamam. Fui abordado e ajudado por um profissional que, momentos antes do concerto dos The James me aconselhou a colocar o meu material noutro sítio pois era comum o Tim Booth subir àquela plataforma e poderia danificar o meu material. … a troco de quê? NADA!

Aqui ficam algumas das fotografias que captei, escolhi e partilhei nas redes sociais:

 

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