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Leica : A experiência há muito esperada

Demorou uns largos anos para desfrutar da oportunidade de  fotografar com uma Leica, porém, posso desde já assegurar que valeu cada segundo.

Há bastante tempo que desejava desmistificar a qualidade das máquinas do “pequeno círculo vermelho” e, curiosamente, a oportunidade surgiu num momento completamente inesperado.

Durante um encontro puramente profissional, um cliente com quem trocava ideias de um âmbito diferente, observou a “minha atual câmara Leica” (uma capa de telemóvel com a imagem do modelo M9)! Em tom de brincadeira me disse que eu tinha um excelente modelo de máquina fotográfica e questionou se alguma vez eu tinha experimentado um modelo desses. Ao responder que não, eis que ele me surpreende retirando do seu saco o corpo de uma Leica M9. A minha reação de estupefação e  o brilho dos meus olhos devem me ter denunciado e, provavelmente, levouo a emprestar-me a máquina por 2 dias.

Um pouco céptico, aceitei o desafio… embora ainda me tenha feito difícil por… 2 segundos! Programei um sábado inteiro para a testar e acabei por tirar 200 fotografias. O resultado foi… (bem, é melhor lerem até ao fim!)

Entro no meu carro, com uma Leica Monochrom e uma lente de 50mm f/2; facto curioso, é que estes objetos valiam mais do que meu próprio carro. Mas isso não era importante para aquele momento 😉

A primeira reação foi bastante estranha pois a sensação de pegar num objeto pesado, de forma rectangular, de cantos redondos e com grandes botões só me levava a questionar “Quem se lembrou de fabricar tal calhamaço?” Contudo, por estranho que parecesse, até encaixava bem na minha mão. Os botões até davam jeito na posição que estavam e o seu tamanho até era adequado para que os meus dedos mudassem todas as configurações de forma fácil e intuitiva.

De seguida, preparei-me para os primeiros disparos. Com mão firme (não fosse o conjunto custar mais de 10.000 euros), decidi sacrificar o meu filho para se tornar o primeiro modelo. Acabo por lhe emprestar o meu telemóvel (o tal da capa da Leica…) para o entreter o suficiente e deixar-me fotografar à vontade (desculpa João!!!).

Tinham-me avisado que a focagem era manual, recorrendo a um pequeno encaixe para o dedo debaixo da lente. Mais uma vez, “Quem se lembraria de tal façanha?”. Ainda estava a habituar-me a colocar os dedos nos locais corretos e dou a primeira espreitadela pelo visor… e o mundo mudou!

De repente, fui transportado para um mundo de emoções diversas, de sentimentos distintos; nomeadamente saudade, visto lembrar a minha antiga máquina analógica Nikon FM2 (que levei 4 anos a juntar dinheiro para a poder comprar). Curiosidade, pois este modelo dotado de um Rangefinder magnifico, leva a que a focagem passe a ser da nossa total responsabilidade. Sem estabilizador de imagem, a fotografia é o resultado final de um momento intimo entre nós e o momento vivido. Captar momentos e sonhos, mesmo a preto e branco, é algo que só esta Leica permite!

O momento do disparo é o culminar de uma expectativa estonteante pela procura da melhor captura. O som liberta-nos da ansiedade da espera e traz-nos ao presente. O habitual movimento de pescoço a confirmar a foto tirada, deixa de existir, pois é completamente irrelevante. Somos nós que fazemos a foto, e pronto! Estará bem, certamente!

A Leica faz-nos recuar 20 anos, oferecendo a fotografia no seu estado virgem e puxando-nos à realidade digital após o disparo. Independentemente do resultado, a experiência de utilização de uma Leica deste tipo é, por si só, um momento único. A abertura ser definida na própria lente, a velocidade ser definida à frente dos nossos olhos, são loucos momentos de “dejà vu” que quem fotografou em modo manual vai adorar reviver. A focagem manual recorrendo ao suporte para o dedo (debaixo da lente) leva-nos a pensar como é possível não se ter tornado um standard… é confortável, é preciso, e faz-nos nunca largar a máquina.

Este modelo em particular apenas fotografa a preto e branco. Maçada?! Nem pensar! Permite que a nossa imaginação flua na procura de momentos que beneficiem dos magníficos contrastes que o sensor proporciona. Permite a descoberta de um conjunto de objetos, reflexos e brilhos que jamais tínhamos reparado.

A verdade é que, com este tipo de máquina, tiramos um número menor de fotografias dada a necessidade de focagem manual. Contudo, todas essas fotos possuem uma estória, um espaço intimo no tempo, muito nosso e que jamais esqueceremos… pois participamos ativamente na construção de cada milésimo de segundo. Não é uma máquina para a maior parte dos fotógrafos… é só para os apaixonados, até iria mais longe… para os “foto-românticos”!

A derradeira pergunta é: “Tão cara… vale mesmo a pena?”.

Oh pá… se vale! Senti-me tal como o Louis Hamilton quando conduziu o McLaren Honda do Ayrton Senna!

A frustração é… não ter a possibilidade de comprar qualquer um destes brinquedos! Contudo, a felicidade  e os momentos passados com ela nestes 2 dias já ninguém me pode tirar. 🙂

Bons “disparos”!

RicardoAlmeida-01

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