OPINIÃO

Fotografar o desconhecido

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A importância de fazer o “trabalho de casa” é elevada e traz sempre vantagens para uma sessão bem feita. Contudo, há sempre aquela altura em que vais fotografar o desconhecido. O que fazer?

 

Nós, amadores, temos de nos agarrar a todas as oportunidades que nos oferecem. Por vezes lá calha fotografarmos dentro na nossa zona de conforto, mas outras há em que nos vemos em braços com o desconhecido. No passado fim de semana foi a vez de registar um concerto de uma banda que simplesmente desconheço.

Os Tindersticks são uma banda inglesa, com um largo histórico de passagens pelo nosso país. Longe das minhas preferências musicais, certo é que por cá existem um longo “clube” de seguidores de uma música mais melancólica. Tentei por várias vezes ouvir alguns temas do ser vasto repertório, mas nunca consegui estar com disposição a condizer.

Por norma, dá-me sono e tendi sempre a adiar para o dia seguinte. Contudo, era certo que tinha de conhecer o espírito e um pouco mais da forma como se apresentavam em palco. … mas era difícil! Depois de muitos adiamentos, chega o dia em que o concerto se vai realizar. À pressa, tento guardar algum tempo do meu dia para ouvir, nem que seja meia dúzia de músicas. Se em situação normal a coisa já era difícil, então sob stress e com pouco tempo livre, pior se tornou.

O pior cenário veio a ser o que tive de enfrentar. Entro na Casa da Música e vejo sala cheia. Ao que parece, há mesmo muita gente a gostar deste género musical… Uma coisa eu sabia… Por experiência anterior naquela sala (Sala Suggia), sabia que teria de me posicionar numa das laterais e daí não me poderia mexer. Um anfiteatro repleto de cadeiras onde a passagem se faz apenas por duas escadarias junto às paredes. Para piorar, o palco fica quase ao nível do chão. Com pouca altura, quem estivesse na primeira fila não iria conseguir ver, caso me posicionasse a meio do palco (ainda que abaixado). Tinha apenas de esperar que o espetáculo começasse e logo ajustaria a minha posição e as configurações da máquina.

 

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Sabia que a música era calma e, portanto, as fotografias iriam ficar muito iguais umas às outras. A movimentação dos músicos deveria estar em sintonia com o ritmo pelo que não esperava um grande espetáculo visual. Para dificultar ainda mais, Stuart Staples (vocalista) é pessoa de pouca conversa. Das duas vezes que falou sem ser a cantar, denotei uma certa timidez. Assim, estava certo que não iria ter mais do que fotos dele a cantar/tocar. O “desconhecido” revelava-se “complicado”, mas eu estava lá para fotografar e era para isso que estava pronto.

3 músicas apenas e teríamos (eu e os restantes fotógrafos presentes) de nos retirar da sala… Coloco a 70-200 na minha 6D e aguardo. É então que algo curioso acontece. Sou abordado por um “colega” que se esqueceu do cartão em casa. Tinha todo o equipamento, mas não iria conseguir fotografar pois não tinha suporte de gravação. Acontece!

Por acaso, na mochila, tenho sempre um porta-cartões com alguns exemplares de reserva. Não tenho grande coisa, mas entre cartões de 2Gb e 8Gb há sempre qualquer coisa que serve para ajudar. Estava certo que poderia nunca mais ver o cartão, mas se me acontecesse a mim, gostava de ter alguém que me “desse a mão”.

Com o início do concerto tenho alguma dificuldade em encontrar um lugar que me possibilitasse captar grandes fotografias. Depois lembrei-me que esse lugar, a existir, estaria interdito a fotógrafos pelo que teria de me cingir ao que tinha. Uma a seguir à outra, lá fui captando algumas posições e tiques do vocalista. Uma banda muito centrada na vos, a iluminação dos restantes músicas era diminuta, tendo algumas dificuldades em registá-los. As músicas iam passando e via o tempo a esgotar-se. Subia escada, descia escada e lá tirava mais umas quantas. A certa altura encostei-me ao palco (mas dentro da zona permitida para fotografar) e coloquei a 16-35mm. Gostava de registar algo diferente. Com a aproximação do palco às cadeiras da frente, talvez ficasse engraçado captar a banda e o público numa mesma foto.

 

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A luz da sala, mais uma vez era inimiga. Pouco se via do público, mas dava para perceber a distância a que estavam dos artistas da noite. Chega o momento em que temos de abandonar.

Saio da sala sem guardar a câmara. Por falta de quem me iria acompanhar ao espetáculo com vista a escrever uma reportagem, deparava-me com um segundo desafio. Ia ter de escrever sobre quem não conheço e nunca me despertou qualquer tipo de curiosidade.

Guardo a credencial de fotógrafo e saco do convite para o camarote. Iria assistir ao resto do concerto, sentado confortavelmente. Teria eu alguma oportunidade de, à socapa, tirar mais uma ou duas fotografias? O ângulo ia ser, certamente, diferente e mais ninguém teria uma fotografia com aquela perspetiva. Chegado ao camarote, uma coisa minúscula com uma dezena de lugares apenas, fico sentado ao lado do funcionário da Casa da Música. Perdi todas as minhas esperanças e finalmente guardei a câmara na mochila.

Lá estava eu, sentado onde (sei que) muitos gostavam de estar, com um grupo totalmente desconhecido à minha frente. Tinha de escrever e, enquanto fotografava, quase nem me apercebi do que estavam a tocar. Empenhado na fotografia, os ouvidos deixam (quase) de funcionar.

O que ia escrever? Nem sequer sabia de onde eles eram… Foi então que comecei a tomar notas. O ambiente, o tipo de espetadores e a forma como foram chegando à Casa da Música. Não houve atrasos e a sala estava cheia muito antes do espetáculo começar. Tinha a certeza que o desconhecido era eu; todos os outros sabiam bem quem tinham à frente, mas não podia fazer fraca figura.

Gajo de tecnologia, tinha de me safar e enquanto tivesse bateria no telemóvel e acesso à internet, nada havia de me faltar. Já tinha o Shazam instalado, mas de pouco me serviu. Ainda tentei saber, através dessa maravilhosa aplicação, o nome das músicas que iam sendo tocada, mas não funcionou. É sabido que, ao vivo, os temas são sempre tocados de forma diferente…

Atento, lá ia percebendo algumas frases e, através do google, fui encontrando as letras das músicas. Não é que fosse importante, mas se eu estava perante um grupo desconhecido, se pelo menos soubesse apresentar as músicas que iam tocando, minimizava a possibilidade de uma “reportagem fiasco”.

Atento, fui ouvindo uma música; depois outra; e outra. Apontava qualquer coisa que me parecesse digna de registo. Sempre com espaços em branco para depois, em casa, saber os nomes dos músicos, lá ia esboçando o artigo.

No final do concerto fiquei para trás. Não me recordo muito bem porquê, mas sei que me lembrei de uma frase que queria incluir, e da qual não me queria esquecer. Foi quando vi o fotógrafo a quem tinha emprestado o cartão a pedir ao Roadie a folha com a setlist. Ele poderia, naquele momento, retribuir o favor. Como tinha o número dele, pois tínhamos trocado mensagens antes do espetáculo, pedi para ele me mandar uma foto da folha. Sempre dava para completar melhor o artigo.

Sempre muito prestável, não demorou muito tempo até que recebi uma foto com a informação toda…

 

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Afinal, talvez não fosse fazer tão fraca figura… De desconhecidos a pouco conhecidos, lá ia conseguindo obter informação que viria a ser fundamental para suportar o artigo que teria de escrever.

Já cá fora, a caminho do carro, encontro um casal amigo. Fãs incondicionais de Tindersticks, o Pedro e a Sónia lá trocaram algumas informações sobre o concerto. Era importante ter a voz de quem conhece e gosta. Tudo foi aproveitado ao máximo… No final, o artigo foi escrito e disponibilizado aqui.

Em tom de conclusão, aceitem o meu conselho: nunca desistam. Conheçam as ferramentas disponíveis e usem-nas sempre. Procurem alternativas e façam-se valer das vossas capacidades para obter sempre mais uma outra informação.

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