OPINIÃO

Apagar fotografias. Será isto uma loucura?

Durante um fim de semana prolongado, e com uma semana mais curta à porta, o nosso espírito parece formatar-se de forma diferente. Temos mais tempo para pensar, para por as ideias no lugar e para estruturar uma linha de raciocínio para os 4 próximos dias. Normalmente, este tipo de mini férias dá-me para pensar um pouco mais além e fora da formatação tradicional das semanas regulares de trabalho. Estive a vasculhar nos meus registos fotográficos e deparei-me com um desafio do meu subconsciente que me ordenava em surdina para apagar as minhas fotografias…

Assustado, resolvi ignorar. Não fosse este um ato louco de eliminar todas as fotografias de momentos especiais vividos com quem merece a minha companhia, ou toda a evolução do crescimento dos meus filhos, mantive-me mais forte do que a tentação e resolvi não ceder. Certo é que não conseguia esquecer totalmente aquele que me parecia talvez o desafio mais estúpido que alguém, alguma vez, me propôs. Mantive-me consciente e decidi explorar aquele pensamento…

Talvez aquele “Apaga as tuas fotografias” não tenha sido um desafio direto; talvez tenha de o perceber primeiro. Pensei, divaguei e cheguei à conclusão que até nem era assim tão descabido. Obviamente que não deveria ser interpretado à letra, mas sob um desafio de seleção perante o meu trabalho. “Apagar fotografias” significava que estava mais que na altura de me posicionar de forma diferente perante o ato fotográfico.

 

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Edição fotográfica. Apagar ou não apagar?

 

Por norma guardo todas as fotografias que tiro. Boas, más e assim-assim. Nunca se sabe o que pode surgir num futuro próximo. Conto guardá-las até que não volte a precisar delas… mas quando chegará esse dia? Estarão as Leis de Murphy prontas para me mostrar que, no dia em que apagar determinada fotografia lembrar-me-ei que a tinha e que a poderia utilizar num determinado trabalho? Então, continuo a adiar o fim de uma grande maioria de fotografias cujo tratamento vou constantemente adiando. Mas então, quais são os três tipo de fotografias que tenho?

Boas

As boas fotografia, como o próprio nome indica, são as dignas de partilha. Nas redes sociais, em família, para apresentar a um cliente. A fotografias boas são aquelas que nos fazem querer voltar a vê-las. Mesmo não fazendo parte do nosso portefólio, acredito que tenham sido (pelo menos) ponderadas para ele.

Más

Seguindo a mesma linha de raciocínio, as más fotografias são todas aquelas que não fazem qualquer sentido. As fotografias que são tiradas por descuido, onde aparecem pessoas a comer, de olhos fechados ou em situações ridículas, e que jamais verão a luz do dia. São fotografias desfocadas, cuja exposição e o enquadramento estão prestes a levar qualquer fotógrafo ao suicídio. Fotografias que captamos com as configurações erradas ou porque disparamos involuntariamente enquanto tirávamos a máquina da mochila.

Assim-Assim

… aqui é que a porca torce o rabo! Aquela sequência de 10 (ou 20) fotografias semelhantes e de entre as quais não conseguimos escolher a que mais gostamos; aquelas que não estando perfeitas, com uma sessão de “corte e cose” até podem resultar em alguma coisa; ou todas as fotografias individuais tiradas com o intuito de fazer uma panorâmica e que, depois da montagem, deixam de fazer sentido individualmente.

Certo é que existem algumas razões que me levam a manter todas as fotografias por um período indeterminado de tempo:

  • quando tiver tempo vou fazer um álbum e estou certo que esta poderá fazer parte das escolhidas;
  • para este trabalho pode não ser adequada, mas a fotografia está interessante;
  • eu sei que vou querer editar esta fotografia mais tarde, talvez até com outro software;
  • dava para um quadro/poster, mas trato disso depois;
  • assim que começar a vender as minhas fotografias em bancos de imagens esta fará parte do portefólio;
  • o custo do armazenamento não é assim tão caro que me obrigue a escolher já quais ficam e quais são apagadas;
  • prefiro pecar por excesso do que por defeito. E se o cliente pede mais fotografias?

Por outro lado, há outras tantas razões que nos fazem querer apagar a grande maioria dos “excessos”:

  • o armazenamento é barato, mas tempo é dinheiro e quanto mais protelarmos, mais fotografias temos de selecionar e, por conseguinte, estamos a perder dinheiro em tempo gasto escusadamente;
  • sempre que tenho problemas com um disco, formato o computador ou quero passar todas as fotografias para um suporte com mais capacidade, as longas horas de espera dão-me cabo dos nervos;
  • e a gestão de fotografias tratadas, por tratar, com marca d’ água, por marcar, raw, convertidas para web, para papel, etc…?!;
  • porque razão quero eu ficar com fotografias de pessoas que não conheço e cujas recordações não me dizem nada? Trabalho feito, imagens tratadas e entregues a cliente, … nada mais há a fazer;
  • o tempo que se perde à procura de uma fotografia de um aniversário dos nossos filhos, onde sabemos incluvé o ano, mas com a quantidade de “lixo” que temos, …

 

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Fotografia panorâmica

 

para um lado e para o outro, estou certo que se me esforçasse um pouco mais, conseguiria mais meia dúzia de razões, mas acredito que já tenha dado para marcar o meu ponto de vista.

E agora?

Sinceramente acho que este dilema (sem desrespeitar ou querer insultar quem quer que seja) é semelhante ao dilema dos alcoólicos ou dos toxicodependentes. O importante é percebermos que temos um problema e que este está perfeitamente identificado, e depois delinear um plano para a sua resolução.

No meu caso concreto, penso dividir o meu trabalho em 3 registos: pessoal, profissional e móvel. A título pessoal, serei menos exigente e mais benevolente quanto à seleção das imagens para apagar. Tenho 3 filhos maravilhosos e grande parte das vezes penso que, mais tarde, eles preferirão ver fotografias desfocadas ou tecnicamente piores do que não ver nenhuma. Contudo, estou sempre à espera das próximas férias para começar a criar os álbuns fotográficos anuais. A título profissional, pretendo separar os eventos por ano e tema e selecionar o menor número de fotografias possível. Com os trabalhos entregues aguardo por 2 ou 3 anos e posso então apagar o que pessoalmente não me cativa. No móvel assumo o registo como de utilização pontual, mas como a capacidade exigida é obrigatoriamente inferior, não me darei ao trabalho de “limpar” regularmente. São sempre aquelas fotografias que “dão jeito”, mas se faltarem também “ninguém morre”…

 

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Álbuns fotográficos. O próximo grande desafio

 

Uma coisa é certa, poucas são as fotografias que vão para imprimir. Dessas, ainda são menos as que serão para pósteres ou fotografias em tamanhos maiores do que 10×15. Depois de devidamente selecionadas e tratadas, o teste de fogo é apagar os originais em raw (sim, porque habituei-me a fotografar em raw e assim me mantenho), libertando desde logo uma grande imensidão de espaço em disco. Daí para a frente, o alento será outro e a minha postura será diferente, estou em crer…

Parece-me uma boa resolução, mas ainda assim tenho algumas dúvidas… O que acham? De que forma tratam o vosso fluxo de trabalho e como o classificam? Têm tratamentos especiais para fotografias profissionais e pessoais ou serei um maníaco acumulador compulsivo? Esta é certamente uma postura da Era digital pois acredito que com a fotografia analógica este dilema teria uma resolução imediata.

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