OPINIÃO

Habilidades Sociais, a chave para a Fotografia de Rua


Tempo de Leitura: 4 minutos

A fotografia aprende-se; a fotografia vive-se. A fotografia representa o dia a dia. Os locais, as pessoas, as situações que pretendemos que perdurem são os nossos principais focos e o que mais procuramos registar. Há várias áreas na fotografia: natureza, desporto, casamentos, … e há a fotografia de rua. Em todas estas áreas, é necessário termos consciência, há condicionantes não fotográficas que temos de levar em linha de conta. Numas mais que nas outras, o fator humano é fundamental pelo que o sucesso poderá estar diretamente relacionado com as nossas habilidades sociais, que devemos trabalhar e desenvolver.

A fotografia de rua exige intervenção; exige interação de alguém que não conhecemos. Não sabemos nada sobre a personalidade, sobre o estado de espírito, a razão pela qual está naquele local àquela hora… Tirar uma fotografia a alguém pode ser considerado como invasão de propriedade. Não sendo esse o nosso objetivo, podemos estar a incomodar alguém que “tem mais com que se preocupar”…

As habilidades sociais serão a chave para o sucesso. Aqui (na fotografia), na vida social, nos negócios, … em qualquer lado. Estamos todos fartos de ser tratados como objetos e/ou números. Temos direitos, gostos e preferências, momentos melhores e piores e queremos (e exigimos) ser tratados com a dignidade que nos assiste. Assim, tal como nós, os outros pensam da mesma forma pelo que os devemos respeitar. As habilidades sociais entram aqui como uma forma de aproximar e valorizar quem, aparentemente, não tem qualquer valor para nós (cuidado…. não tem valor real, nunca aqui pretendo menosprezar ou denegrir a imagem de quem não conheço).

Interação com estranhos: uma dificuldade desafiante

Interação com estranhos: uma dificuldade desafiante

Então, para que consigamos tirar partido das situações crescendo, ao mesmo tempo como ser humano, como devemos desenvolver as nossas habilidades sociais?

O Básico

A primeira coisa que temos de fazer é alargar os horizontes. Como, e enquanto, fotógrafos, tendemos a ver um pouco mais além do que está à frente dos nossos olhos. Preocupamo-nos com o meio envolvente, pensamos no enquadramento e até reparamos em elementos externos que podem influenciar a fotografia. O princípio é o mesmo… devemos reparar na envolvência, considerar cada pessoa como uma personagem e não um figurante. Todos somos iguais, todos temos um “primeiro nome” e todos estamos ali por uma qualquer razão. Assumir o princípio da igualdade facilita o contacto interpessoal.

Iniciar conversação

A aproximação a um estranho pode parecer….. estranho! “Olá, o meu nome é NUNO MACHADO e gostaria de lhe tirar uma fotografia”. Não me parece que haja muita gente a aceitar esta abordagem. Contudo, só temos a certeza depois de o tentarmos. Certo é que vamos levar muitas negas, mas haverão outros que aceitarão. Se a isto juntarmos uma breve explicação da razão que nos levou a aproximar-nos, talvez consigamos mais… Talvez compreenderemos por que razão existe tristeza naquele olhar, porque razão a roupa não condiz… pode ser gosto pessoal ou por ter adormecido de manhã e não ter tido tempo para cuidar devidamente da indumentária.

Estas questões aleatórias, bem aproveitadas, retratam personagens diferentes. Perceber e conhecer um pouco mais de cada indivíduo enriquece-nos enquanto seres humanos, mas também melhora o nosso trabalho fotográfico.

Linguagem corporal

Não só de palavras é feita a comunicação. Um olhar ou simplesmente a postura poderão ser suficientes para demonstrar confiança perante um desconhecido. Uma aproximação descontraída e segura permite que transmitamos a verdadeira razão pela qual pretendemos fotografar. Ao escondermo-nos, desviarmos o olhar e a câmara quando somos “detetados”, passamos a impressão de que estamos a agir erradamente. Se formos simpáticos, sorrirmos, piscarmos o olho (até) e nos dirigirmos ao “alvo” mostrando o resultado final, poderemos ganhar a empatia e (porque não) uma ou outra fotografia mais…

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Mostrando o resultado de uma fotografia “roubada”

Tratem os estranhos como conhecidos

Costumo dizer que “antes de saber, não sabia”… Antes de conhecer alguém, essa pessoa era um estranho para mim. Até conseguirmos algo, não o temos… Não há dados adquiridos, temos de construir uma relação e como a primeira impressão é a que conta, devemos fazê-lo cautelosamente.

Lembro-me ter desenvolvido algumas amizades, agora GRANDES AMIZADES, que começaram por uma simples contratação para um serviço (profissional) específico. As coisas crescem, cultivam-se e alimentam-se, mas antes é preciso “semear”.

Obtendo o melhor de um estranho

Obtendo o melhor de um estranho

Todos somos diferentes, todos temos estratos sociais diferentes, vidas diferentes, idades diferentes. Trata os mais velhos como se fossem teus pais e os mais novos como irmãos ou primos. Mostra carinho e atenção sem imposição. Sermos nós próprios é meio caminho andado para o sucesso. Cuidado com o excesso de confiança, esse costuma ser prejudicial!

Treina, … diariamente

As habilidades sociais, contrariamente ao que se costuma dizer, não são natas. Há realmente pessoas com mais propensão à conversa, mais fáceis de se relacionar, mais extrovertidas, mas se não conseguirmos ou soubermos conduzir uma conversa podemos correr o risco de sermos apenas metidos e inconvenientes.

Eu gosto de ser bem servido, … quem não gosta? Eu gosto de fazer com que as outras pessoas se sintam bem. Adoro um sorriso de uma criança ou um perceber que, de alguma forma, contribui para que alguém tenha tido um “bom momento” no seu dia. Não sou mais que ninguém, muito menos me considero “especial”, mas há simples atos que podem servir de “exercício” para as habilidades sociais.

É comum, quando vou às compras com a minha mulher, “meter conversa” com quem está nas caixas registadoras. Jumbo, Continente, Pingo Doce, …. e outros (passo a publicidade gratuita) têm funcionários, muitos deles contrariados, que trabalham horas a fio e aturam pessoas de todo o tipo. Há sempre uma piada que se faz, um comentário ou uma aproximação com vista a obter um sorriso ou uma correspondência bem humorada. O que começou por parecer estranho, passou a ser habitual. A minha mulher não se importa com isso, eu sou mesmo assim, mas tenho a certeza de que, sem haver qualquer tipo de segundas intenções, estou a contribuir para um momento de distração de quem está a trabalhar enquanto me exercito. Faço-o sem a preocupação de evoluir com vista à fotografia de rua, mas sei que este exercício poderá ajudar-vos a libertarem-se um pouco, a ganharem mais confiança nas palavras e na postura.

 

 


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