GUIAS RÁPIDOS

Como abordar estranhos?


Tempo de Leitura: 6 minutos

A fotografia de rua leva-nos a procurar o que de melhor existe para fotografar, na sua essência mais pura. Constituída por pessoas e objetos, a paisagem completa-se com rituais não ensaiados que vagueiam e preenchem os espaços vazios fazendo desta, uma forma distinta de fotografar. Normalmente rodeados de estranhos, o difícil é ter o seu consentimento para os fotografar condignamente.

É normal recolhermos fotografias onde aparecem … pessoas, mas também há individualidades cujas caraterísticas nos despertam a curiosidade e o gosto de fotografar. A cor do cabelo, a barba, o vestuário ou simplesmente um brinco, são pormenores apetecíveis e que podem fazer toda a diferença numa fotografia. Quantos de vós não tiveram já vontade de fotografar alguém, mas tiveram receio da sua reação?

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Retrato de estranho. Fotografia de rua

A aproximação e a capacidade de obter autorização para captar um retrato de alguém especial nem sempre é tão fácil quanto possa parecer. O primeiro receio que temos de enfrentar é o da negação. Há a postura e o timbre de voz que podem incutir ao nosso modelo fotográfico um receio ou uma descrença na verdadeira razão pela qual pretendemos fotografar. É difícil um estranho aceitar que outro estranho o considere interessante. Obviamente que tendemos a conotar qualquer aproximação de sexual ou agressiva e tendemos a afastar-nos e por isso é preciso agir cuidadosamente.

Este artigo não é de perto nem de longe uma cartilha que deva ser seguida. Simplesmente há vários aspetos que os profissionais identificaram, e com os quais se debatem diariamente, para conseguirem fotografar … estranhos! Considerem este exercício como algo para além do exercício fotográfico, pois necessitam de treinar a auto-estima e a confiança pessoal. Lembro o Projeto 100 estranhos, 100 histórias do qual já falamos aqui e que permite colocar em prática as técnicas que apresentamos de seguida. Abordar alguém pode ser tão complicado como apetecível; nunca sabemos o que vai acontecer.

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Fotografia de rua; fotografia de estranhos

Tirar fotografias a estranhos contempla essencialmente 4 estágios: a ideia, a abordagem, a concretização e o afastamento.

A ideia

É importante aprendermos a apreciar! Ao encontrarmos alguém interessante, e considerando que o queremos fotografar, é necessário preconceber uma imagem. Perceber quais são as caraterísticas mais interessantes e quais as que pretendemos evidenciar. Certo é que não teremos muito tempo disponível pelo que é importante sabermos exatamente o que queremos fotografar e como o vamos fazer. Se calharmos de ter a sorte e o consentimento para fotografar, temos de nos lembrar que estamos a usar do tempo de alguém, gratuitamente, e que não deveremos em altura alguma ser insistentes e chatos ao ponto de incomodar quem se prestou a ajudar-nos. Assim, pensar na postura, no enquadramento, no fundo, na utilização de profundidade de campo, etc são questões que devem ser ponderadas antes de abordarmos o indivíduo.

A abordagem

Para muitos esta não é uma tarefa difícil. Há-os com mais à vontade, mais certos de si e com capacidade de argumentação para (se) vender. Acontece que “quem vai, quer chegar a algum lado”; não anda na rua à espera de ser abordado e, por isso, esta é uma ação reprovada pela grande maioria. Temos de ser assertivos, transparentes e cativantes. a linguagem utilizada deve ser “limpa” e sem qualquer hipótese de conotação sexual ou agressiva.

Dizem, quem nisto anda já há alguns anos, que devemos começar por nos apresentarmos. Ao dizermos o nome, é importante de referirmos que somos fotógrafos e que gostaríamos de tirar uma fotografia. Aqui temos duas vertentes: a da aproximação direta ou a premeditada. Ou agimos por instinto e solicitamos a autorização de imediato, ou entregamos o nosso cartão de vista, solicitamos que procurem informações nossas e vejam os nossos trabalhos, aguardando por um contacto posterior, caso venha a aceitar ser fotografado.

É importante darmos a capacidade de escolha… Só assim podemos transmitir segurança no nosso trabalho, eliminar qualquer ideia de flirt e deixar interiorizar a verdadeira razão de queremos aquele retrato. “Elas” terão certamente reações mais ponderadas, provavelmente aceitarão uma sessão posterior, onde irão acompanhadas de alguém que as faça sentir seguras, … tudo bem; ao fim ao cabo só queremos mesmo é fotografar!

A justificação fica sempre bem e dizermos que gostamos da cor do cabelo, do corte da barba ou dos brincos que usa, pode afastar qualquer dúvida quanto às nossas intenções. Devemos estar preparados para o “não” e aceitá-lo sem qualquer insistência ou hesitação.

A menos que a intenção seja a de fotografar mais do que uma pessoa, abordem alguém que vá sozinho (mas em locais de movimento). Tendencialmente, temos o instinto de recusar uma proposta por considerarmos que vamos ser alvo de chacota por parte de quem nos acompanha. Obviamente que há alturas em que não dá para ser de outra forma e então passamos à ação. Por outro lado, o local onde decorre esta ação é muito importante pois quanto mais movimentado for, maior segurança trará. Podemos até solicitar que o “estranho” se possa aproximar mais de uma zona onde estão mais pessoas, para que se sinta seguro.

Atualmente, é normal sermos assaltados em plena luz do dia e, até mesmo, em grandes centros com movimento. Esta será a primeira coisa que pensarão as pessoas que abordarmos, daí termos de ter cuidado na aproximação. É importante cativar o indivíduo. Se por qualquer razão, considerarem que podem estar prestes a serem contemplados com uma resposta negativa, antecipem a jogada. Agradeçam e retirem-se. Por muito interessante que o indivíduo seja, pensem que há tanta coisa que só acontece uma vez na vida e ainda assim nós não temos a oportunidade de fotografar. Contudo, não se deixem derrubar! Não pensem que há quem tenha sempre o sim…

A concretização

Se chegarem aqui, o vosso trabalho está facilitado. Mantenham a postura profissional, partilhem a vossa ideia com o estranho e ponham-na em prática. Nesta fase já não há muito mais a dizer que não as indicações normais de uma sessão fotográfica. Sejam simpáticos, falem constantemente com o modelo e lembrem-se que este não é profissional. Sentir-se-á constrangido em frente a uma câmara e a alguém que não conhece. Lembrem-se que alguém vos ofereceu um pouco do seu tempo, não o desperdicem. Sejam contidos nos disparos.

É importante que o nosso “alvo” não se sinta usado. Assim, ao fazerem chimp, mostrem-lhe a(s) fotografia(s) que tirarem. Ofereçam-se para lhe enviar a fotografia por email, mas deixem claro que é uma forma de agradecimento e nunca a pretensão de obter o contacto. Se acharem melhor, deixem o vosso cartão de visita e deixem que seja ele(a) a tomar a iniciativa de vos contactar e solicitar a(s) fotografia(s).

O afastamento

Da mesma forma que entramos no dia deste desconhecido, devemos sair. Discreta e tranquilamente, devemos agradecer o tempo dispensado garantindo que há, da nossa parte, toda a disponibilidade para contatos futuros.

Seja para o envio do fotografia ou até mesmo para uma possível contratação para um trabalho mais sério, quem sabe não podemos ter acabado de ganhar um cliente ou, até mesmo um amigo?

Confesso que não sou praticante de fotografia de rua e que não me vejo a ter uma manifesta vontade de abordar estranhos. Pessoalmente,considero-me extrovertido, fazendo uso dessa minha caraterística para iniciar conversa praticamente com qualquer pessoa, mas nunca o fiz com vista a obter uma contrapartida efetiva.

Gostava apenas de salientar um caso particular que considero de elevada delicadeza. Até aqui abordamos a aproximação a estranhos, adultos. No que concerne à captura de imagens de crianças, por favor, redobrem os cuidados. Tentem perceber quem são os pais e abordem-nos. Garantam que o anonimato do filho é totalmente garantido e que não permitirão que a imagem seja utilizada sem o consentimento dos progenitores. Se considerarmos que há gente agressiva e indisponível para colaborar numa situação destas, tenham consciência de que, tratando-se de uma criança, a inflexibilidade é redobrada.

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Fotografe estranhos, mas cuidado com as crianças

Já agora, partilhem connosco as técnicas usam para abordar estranhos na rua. Fazem-no de todo ou simplesmente tiram fotografias sem consentimento?

 


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