OPINIÃO

analógico vs digital … por Diana Rui Carapuço


Tempo de Leitura: 8 minutos

Estamos em 2016 e, mais de uma década depois do digital se ter instalado confortavelmente como líder de mercado entre fotógrafos profissionais e amadores, parece que o debate analógico versus digital ainda está presente e de boa saúde. Não gosto de pensar numa variante contra a outra, pois vejo os dois suportes como complementares. Actualmente não me imagino sem nenhuma das duas tecnologias.  E perguntam vocês: Porquê, Diana? O Lightroom, o VSCO e o Instagram têm uns filtros tão lindos que simulam tão bem fotografia analógica, para que queres estar a perder tempo com rolos, revelações e digitalizações? A resposta é simples: o digital não devolve o mesmo resultado que o analógico e vice-versa.

Um dos grandes debates que vejo, vezes sem conta, em fóruns, páginas, redes sociais e afins, é que o digital tem mais megapixeis ou resolução que o analógico. Nos parágrafos seguintes vou dissertar porque é que isto não faz sentido.

O filme é um suporte analógico e é, portanto, desprovido de pixeis. Não faz sentido comparar pixeis finitos de um sensor a algo orgânico e infinito, como é a transparência de um negativo. Se pensarmos nos fotões de luz como o conteúdo que vai ficar impresso numa película de 35mm, sabemos que estas partículas de luz lá registadas não têm qualquer limite físico perceptível. Não me refiro ao comprimento e à largura mas sim à profundidade ou gama dinâmica, à falta de melhor termo.

Para explicar melhor este conceito, imaginemos aquelas animações de fractais que continuam infinitamente onde surge sempre mais e mais informação. Informação esta que, inicialmente, era imperceptível. A natureza e o mundo analógico funcionam desta maneira. As ondas de luz registadas na película de filme também são contínuas também no sentido do eterno abismo onde toda a informação imperceptível ao olho humano efectivamente existe.

Talvez seja aqui que reside a alma da fotografia analógica. Brincadeira à parte, os scanners ainda não têm capacidade de capturar toda esta informação e de a resolver em pixeis. A resolução digital de uma fotografia analógica será apenas tão boa quanto a qualidade da digitalização que o scanner lhe permitir.

A imagem é convertida para pixeis através da digitalização de um scanner que lhe atribui uma resolução específica. A indústria fotográfica ainda argumenta ferozmente qual é a melhor resolução para capturar toda a gama dinâmica dentro de um negativo 35mm. A resposta é tanto esotérica como evasiva, pois quantifica-se que existem mais de 25 milhões de pixels numa imagem de 35mm, o que equivale a cerca de 25MP, ou 6144×4668 pixels. Repare-se que esta é a capacidade actual de resolver a digitalização de um negativo e não a informação que efectivamente lá está registada. Acredito que, no futuro, a tecnologia de digitalização conseguirá extrair mais detalhe dos nossos negativos. Penso que actualmente, face às limitações tecnológicas da digitalização de um negativo, a forma correcta de comparar a qualidade de ambos os meios será através da impressão e não da projecção de megapixeis num monitor.

Existe ainda a percepção de que a quantidade de megapixeis é sinónimo de qualidade de imagem. Qualquer smartphone actualmente tem 20MP, tanto como muitas DSRLs profissionais, no entanto a qualidade do sensor é o factor chave que define a qualidade da imagem capturada. O sensor do telemóvel é pequeno e nem de longe nem de perto, tem a capacidade de resolver a gama dinâmica da mesma forma que uma DSLR tem. Mas isto é um assunto totalmente diferente.

Actualmente utilizo a fotografia digital para trabalho profissional e a analógica para projectos pessoais. Claro que isto não é um credo; também uso o digital quando é mais conveniente ou, simplesmente, quando me apetece. A conveniência é provavelmente o ponto forte do digital que o analógico nunca irá suplantar. Só o futuro o dirá. Numa fase em que a sociedade está programada para o aqui-e-agora é difícil reprogramarmo-nos para o clicar-agora-e-ver-o-resultado-amanhã. Tanto o suporte analógico como o digital são, para mim, ferramentas distintas com resultados diferentes que se complementam.

Depois de abordar estes pontos sigo, então a enunciar, as características que prefiro nos dois suportes:

Canon EOS 50e + Canon EF 28mm 2.8 + 35mm KODAK TMAX 400

Canon EOS 50e + Canon EF 28mm 2.8 + 35mm KODAK TMAX 400

1 . Textura e grão

O filme tem uma textura orgânica muito diferente do digital. Cria uma certa tridimensionalidade que não consigo obter através do digital. O grão do filme e o ruído digital não são sinónimos. O grão do filme faz parte desta textura que refiro. É uma característica obtida através de vários factores: pela quantidade de luz a que a película foi exposta, o tipo de filme, a sensibilidade do filme, a química com a qual foi revelada, o processo de revelação, etc.
O ruído digital, apesar da tecnologia actualmente ser fenomenal, ainda não é tão apelativo – e não vos sei dizer porquê – é apenas ruído, são apenas pixeis que o sensor não conseguiu resolver correctamente através da luz captada, interpolou a informação e kaputt. Existe também software que consegue simular muito bem o grão. Ainda assim, prefiro a textura e grão o analógico.

2. Cor e tonalidade

As cores dependem directamente do tipo de filme escolhido. Durante muitos anos tive uma relação amor/ódio com a fotografia a cores. Andei anos a tentar recriar certas tonalidades que via no trabalho de muitos fotógrafos que admiro (quase todos fotografavam com filme), quando simplesmente cheguei à conclusão que é impossível simular digitalmente as cores e texturas obtidas através do filme. Mais vale pegar num rolo e ir fotografar do que perder tempo a calibrar um ficheiro RAW.

Canon EOS 33 + Canon EF 50mm 1.8 MI + 35mm AGFA Vista 200

Canon EOS 33 + Canon EF 50mm 1.8 MkI + 35mm AGFA Vista 200

Canon EOS 33 + Canon EF 50mm 1.8 MI + 35mm AGFA Vista 200

Canon EOS 33 + Canon EF 50mm 1.8 MkI + 35mm AGFA Vista 200

3. O modo de fotografar

O facto de sabermos que estamos com uma máquina onde lá está enfiado um rolo com 36 exposições faz com que não se aperte o botão de disparo só para ver como está a luz ou se saiu bem para depois fazer melhor nas próximas 10 tentativas. Com o filme sabemos que todos os cliques contam porque, na verdade, não são cliques, são fotogramas com um número reduzido. Cada vez que apertamos o disparador, o nosso coração também aperta um bocadinho, mesmo que tenhamos mais 2 ou 3 rolos no bolso. Isto faz com que composição seja mais cuidada. A escassez faz destas coisas ao cérebro humano.
Os cliques das máquinas digitais também são finitos, entre 100.000 a 300.000 dependendo do modelo, mas na nossa cabeça isso está tão distante como a probabilidade de levar com um piano de cauda em cima. E isto também não interessa muito porque antes dos cliques esgotarem o nosso precioso sensor, vamos trocar de máquina porque entretanto apareceu um modelo mais espectacular.
A diferença efectiva é que, quando saio à rua para fotografar, com a máquina digital trago 100 ou mais imagens onde muitas são parecidas e levam com um delete em cima. Em contrapartida, com o analógico, sou capaz de gastar um rolo de 36 fotografias no intervalo de uma semana e em que aproveito um rácio maior de fotografias.

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Pentax Spotmatic + S-M-C Takumar 50mm 1.4 + 35mm KODAK Eastman Double-X

Pentax Spotmatic + S-M-C Takumar 50mm 1.4 + 35mm KODAK Eastman Double-X

4. Médio Formato

Como a tecnologia analógica parece estar dormente na cabeça da indústria e dos consumidores, o equipamento analógico de médio formato está especialmente barato. Actualmente podemos comprar uma máquina e uma lente de médio formato por menos de 200€. Se quisermos fotografar neste formato em sensores digitais é melhor vender a casa e os rins para depois comprar o material. Mais coisa menos coisa.

É aqui que a fotografia analógica supera a digital a pontos largos. Um sensor de uma DSLR tem 35mm, um negativo de médio formato tem 60x60mm (ou em centímetros como é designado este formato, 6×6, 4×5, 6×7, 6×9).

Façam a experiência e apreciem a qualidade de uma digitalização de um negativo de médio formato ao lado do ficheiro RAW da vossa DSRL.

Pentacon Six TL + Carl Zeiss 80mm 2.8 + 120mm KODAK TMAX 100

Pentacon Six TL + Carl Zeiss 80mm 2.8 + 120mm KODAK TMAX 100

Pentacon Six TL + Carl Zeiss 80mm 2.8 + 120mm KODAK EKTAR 100

Pentacon Six TL + Carl Zeiss 80mm 2.8 + 120mm KODAK EKTAR 100

5. Processo químico versus zeros-e-uns

Esta é a questão romântica da fotografia. Quando se fala no processo de revelação a um fotógrafo é quase visível a forma de um coração na sua íris. O processo de edição no computador é algo que me dá tédio, é semelhante a cozinhar. Não gosto de cozinhar… Sei qual é o resultado final que pretendo em determinada fotografia e todo o processo digital para lá chegar é-me extremamente aborrecido.

Por outro lado, para mim, o processo químico de revelar os negativos já é um processo relaxante.

Fazer uma imagem aparecer no meio dos químicos e do revelador é outra história, é algo orgânico que transcende a experiência da edição no domínio digital.

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6. Arquivo

O arquivo analógico é simples: compreende-se em espaço físico. Podemos guardar negativos em pastas, prateleiras, gavetas, folhas de arquivo, etc. Depende da capacidade de organização de cada um e do espaço disponível.

O arquivo digital depende de servidores ou de discos duros e quantos mais back-ups tivermos melhor.  Se tivermos todas as nossas fotografias guardadas num só disco ou computador, corremos muito facilmente o risco de as perdemos para sempre.

Os negativos, são à prova da paranóia informática mas não são à prova de incêndios e outras calamidades. Por outro lado, os discos e os computadores também não. Felizmente existe também a possibilidade de guardar tudo na cloud inclusive as digitalizações dos nossos negativos.

Muito facilmente um fotógrafo gasta milhares de euros em discos e em back-ups. O arquivo analógico não padece desta eventualidade de um dia se ligar um disco e de repente já não está lá nada. Se houvesse um apocalipse informático ainda era possível imprimir os negativos através de químicos.

7. A rapidez, conveniência e feedback instantâneo

Em contexto profissional não me posso dar ao luxo de depender do processo químico para entregar um trabalho final a um cliente. Percebo que era assim há 20 anos, mas agora não é. A mentalidade do cliente é outra. Actualmente, se dependesse do processo analógico para fazer um trabalho fotográfico, andava uma pilha de nervos e teria que me reformar 20 anos mais cedo. Por muito romântica que seja a ideia de revelar as fotografias, este processo é mais volátil. Os cartões de memória também podem ficar corrompidos sendo uma eventualidade pouco provável.

O facto de podermos partilhar uma fotografia nas redes sociais ou através do email segundos após ter sido tirada também é algo que só é possível através do suporte digital. E, para alguns é, extremamente conveniente e fulcral. Por outro lado, penso que nos retira um pouco a experiência de viver o mundo real no presente e não através de um ecrã onde chovem likes.

Pentax Spotmatic + S-M-C Takumar 50mm 1.4 + 35mm KODAK Portra 400

Pentax Spotmatic + S-M-C Takumar 50mm 1.4 + 35mm KODAK Portra 400

8. A nitidez e o detalhe

Comparando duas fotografias, uma em suporte digital de 35mm digital e outra em suporte analógico de 35mm, quando amplificadas num monitor a 100%, consegue-se ver uma imagem mais cristalina, nítida e detalhada quando esta é capturada num suporte digital.

Aqui, o factor decisivo é a qualidade do equipamento: máquina, lentes e scanner. Actualmente digitalizo negativos com um Canon 9000F MarkII. Não é a melhor opção para negativos de 35mm mas para digitalizações de negativos de 120 já é razoável.

Fica aqui em aberto uma sugestão para debaterem e sugerirem qual o melhor equipamento actual para a digitalização de negativos.

9. ISO

Em termos de fotografia nocturna ou em ambientes de luz fraca, o digital é mais vantajoso pois é possível obter imagens muito detalhadas a valores ISO bastante elevados. É possível fotografar em filme a ISO 6400 mas à custa de muito ruído. É possível que empresas, como a Kodak ou a Fujifilm, lancem novos tipos de filme com a possibilidade de resolver mais detalhe a ISOs elevados. Actualmente temos novos tipos de filme, como o Ektar ou o Portra com um detalhe fenomenal já concebidos para serem digitalizados, em que os scanners conseguem retirar muito mais detalhe do que o que conseguem em filmes concebidos para a impressão.

Canon 6D + Tamron 24-70mm 2.8 VC + ISO 12000

Canon 6D + Tamron 24-70mm 2.8 VC + ISO 12000

10. Equipamento e a obsolescência programada

Actualmente o obturador de uma máquina fotográfica digital é concebido para disparar entre 100 mil a 300 mil vezes, depois vai para o lixo ou entretanto já foi ultrapassada por um novo modelo com mais megapixeis ou com um sensor melhor, com mais pontos de auto-foco, mais leve, mais magra, mais bonita, etc. Isto significa que, a cada 3, 4 ou 5 anos temos de comprar um novo corpo, se não é pela obsolescência programada, é porque está desactualizada e o mercado é feroz. O impacto ambiental deste lixo tecnológico é ainda mais preocupante.

Tenho várias máquinas analógicas com mais de 40 anos que ainda funcionam como se tivessem saído da loja ontem. Evidentemente precisam de manutenção mas não me custam 2000 ou 3000 euros a cada 4 anos.

Pentax Spotmatic + Helios 44-7 58mm 2.0 + 35mm KODAK Ektar 100

Pentax Spotmatic + Helios 44-7 58mm 2.0 + 35mm KODAK Ektar 100

 

Diana Rui Carapuço
Site: www.dianarui.net
Facebook: http://www.facebook.com/dianaruibc

Diana Rui Carapuço

Diana Rui Carapuço

 


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