OPINIÃO

Adeus fotografia, olá video!


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“Video Killed the radio stars” é um tema famoso dos Buggles, de 1979, que fala da introdução dos vídeogravadores no nosso quotidiano, aniquilando a magia da rádio. Esta mudança nada pacífica abriu as portas a uma nova era musical que, recorrendo ao vídeo, conseguiam nalguns casos captar mais atenção pelas mensagens visuais do que propriamente através das mensagens contidas nas músicas, acabando por dizer Adeus a alguns (até então) artistas de topo.

 

Como a resistência à mudança e a capacidade de adaptação ditaram regras duríssimas no cenário musical das décadas de 70 e 80, novos grupos surgiram destornando os “velhos do Restelo” do panorama musical internacional.

A tecnologia continuou a avançar e nem só de novas técnicas vive o vídeo. Os equipamentos permitem a captação de imagens com melhor qualidade e algumas técnicas de cinema foram trazidas para as produções mais “caseiras”. Com algumas nuances, o vídeo acaba por estagnar quase no final do século passado…

Com o aparecimento das máquinas fotográficas digitais teme-se o pior – a fotografia substituirá o vídeo, pelo menos nas suas formas mais tradicionais. As produções animadas começam a ser criadas a partir dos dispositivos fotográficos, que ganham funções (capacidades) de gravação de video, acenando em forma de “Adeus” para as máquinas que, embora boas, se cingiam apenas a este formato. Com um só equipamento começamos a ter a capacidade de realizar os dois tipos de registos.

Reduzem-se o número de elementos por equipa e aumenta-se a exigência da polivalência do fotógrafo, agora também operador de câmara. A imposição da fotografia e a acessibilidade dos equipamentos às massas faz cair as vendas de máquinas fotográficas que parecem dizer um definitivo Adeus ao passado risonho de um passado recente.

A polivalência das DSLRs

A polivalência das DSLRs

Mas eis que aparecem as máquinas de filmar para desporto. As GoPro tornaram-se um sucesso viral e sua compra inverteu todas as tendências. Ter a possibilidade de filmar as férias, debaixo de água, uma prova de desporto, etc… As capacidades de resistir às adversidades dos diferentes ambientes fizeram da GoPro um sucesso de vendas e um case study. Não é novidade nenhuma, mas rapidamente se percebeu que a diferenciação seria a salvação do vídeo.

As marcas de equipamento fotográfico “pegaram” na dica e começaram elas a produzir máquinas destinadas primordialmente ao vídeo. Outras marcas se seguiram e temos hoje, novamente, um mercado de equipamentos de vídeo bastante diversificado e com elevada qualidade (incluindo a captura de vídeo em Full HD, 4k e até mesmo 8k). Tal como uma Phoenix ressuscitada de entre as cinzas, o vídeo resolveu vingar-se daquela que foi a sua última, e mais forte, ameaça – a fotografia.

Com a capacidade de gravação a atingir níveis elevadíssimos de 300 frames por segundo, é perfeitamente possível conseguir captar-se um frame, uma imagem estática, a 8 megapixels (definição equivalente à conseguida com um vídeo de 4k). Obviamente que, se considerarmos que as máquinas fotográficas contam já com definições de 18 e 20 megapixels nas DSLRs e 50 megapixels nas de médio formato, a coisa ainda parece andar um pouco distante, mas se virmos a utilização regular (na internet) que damos às fotografias, … a ameaça começa a fazer sentir-se. É muito provável que a definição de um frame de um vídeo captado a 4k tenha uma qualidade bastante semelhante à de um smartphone ou até mesmo de uma máquina fotográfica regular. Se a isso ainda juntarmos os processos de codificação de imagens aplicados pelo Facebook às fotografias antes de estas serem publicada, …. pior!

Temos de poder comparar coisas comparáveis e é lógico que não podemos exigir a mesma qualidade na impressão de uma fotografia em 4k e numa captada por uma câmara fotográfica de médio formato, mas atendendo aos tamanhos normais dos posters impressos, o Adeus à fotografia parece poder vir a ser uma realidade… senão reparem…

Foram precisos 6 anos, 4.200 horas e cerca de 720.000 fotografias para que Alan McFadyen conseguisse a fotografia perfeita.

A fotografia perfeita. "Guarda-Rios". Por Alan McFadyen

A fotografia perfeita. “Guarda-Rios”. Por Alan McFadyen

Se o objetivo for a distribuição online ou a impressão até ao tamanho regular de um poster (tamanho A0 “?”), o seu trabalho poderia ter ficado reduzido a … (sei lá,) metade? Teria ele filmado o pássaro a mergulhar na água, selecionar o frame exato do toque do bico na tona da água e… voilá!

O mérito existe; o fotógrafo sai (sempre) valorizado, mas casos há em que o trabalho não traz rentabilidade; depende da finalidade pretendida! Os mais puristas defendem sempre a vertente da arte e do timing, que aliás será sempre a minha opinião, mas sob uma perspetiva profissional de redução de custos e de aumento de rapidez de execução, sem grande comprometimento no que concerne à qualidade final, parece-me que o “video killed the photography star


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